quinta-feira, janeiro 29, 2026

andrômaca

 não conheci troia

ruínas a mais ruínas a menos

também guardamos pedras aqui

do outro lado do oceano

tudo o que aprendi foi nesse alfabeto moderno

eis o momento apoteótico minha obsessão

nossos despojos é troia

minhas amigas encurraladas

na mesa do chefe é troia

a jovem saco preto no rosto

festa de luxo é troia

as baratas roendo o cu

da guerrilheira comunista é troia

é troia meu companheiro baleado no rosto

é troia os corpos desovados no mangue

as lideranças perseguidas é troia

as vítimas do feminicídio é troia

os milicos os fascistas os tiranos

disparam todos contra troia

a filosofia o direito o ocidente

nascem da devastação de troia

agora você entende por que voltei?

não conheci troia mas a entrevejo esplêndida

nas carícias clandestina durante os bombardeios

e gás de pimenta nas barricadas

nas clínicas de aborto nos abrigos

inusitados na desobediência

no canto sim no canto

eu não vou me entregar

você grita eu repito

através dos séculos

minha irmã

não há poemas para ti

nenhuma linha sobre cibele

onde perdemos o tino quando virou espetáculo

maldita literatura e seu panteão de vitórias

me abrace forte a explosão está próxima

ela há de vir


Luiza Romão in: Também guardamos pedras aqui. São Paulo: Editora Nós, 2021. 

terça-feira, janeiro 27, 2026

Li Bai - Duas Traduções

 Zombando de Du Fu
"Do arroz cozido", chamam esta colina.
Chapéu de palha enorme ao sol a pino,
Du Fu, ali rever, mofino e magro:
poesia é ofício desde sempre amargo. 


Tradução de Ricardo Primo Portugal e Tan Xiao, in: Antologia de poesia Clássica chinesa - Dinastia Tang. São Paulo: Editora da Unesp, 2013.


Para Tu-Fu, com humor
Ei! És tu, no topo da montanha Fan-Ko,
com um enorme chapéu ao sol do meio dia? 
Quão magro, miseravelmente magro, tu estás!
Deves ter sofrido outra vez de poesia...


Tradução de Pedro Belo Clara a partir do inglês de Shigeyoshi Obata,  in: Oito poemas de Li Bai (Li Po), Blog Letras In.Verso e Re.Verso [Acessado em 23/01/2026].

Ezra Pound - Antiga Sabedoria, Um Tanto Cósmica

 So-shu sonhou,
E tendo sonhado que era um pássaro, uma abelha, e uma borboleta
Pensou com seus botões para que procurar sentir-se como qualquer outra coisa.

Daí sua satisfação.


Tradução de Mário Faustino


So-shu dreamed, 
And having dreamed that he was a bird, a bee, and a butterfly,
 He was uncertain why he should try to feel like anything else, 

 Hence his contentment. 



 in: Ezra Pound. Poesia. Introdução, Organização e Notas: Augusto de Campos. São Paulo: Cobalto, 2024. 

segunda-feira, janeiro 26, 2026

Simônides (Trad. Donaldo Schüler)

 Fragmento 521

Por seres homem, não digas o que sucederá amanhã.

Havendo alguém feliz, como prever por quanto tempo o será?

Pois rápida nem a da mosca asa-veloz

assim a mudança. 


Fonte: Schüler, Donaldo. Literatura Grega. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1985. 


domingo, janeiro 25, 2026

Tirteu - Trad. Donaldo Schüler

 Fragmento 10 W, versos 1-14


Gloriosa é a morte nas primeiras linhas,

  do soldado que luta pelo torrão natal.

Não há vergonha maior que

    mendigar longe da pátria e dos férteis campos,

amargando o exílio com a mãe estremecida e o velho

    pai, os filhinhos, a esposa amada.

Tangido pela penúria, pela pobreza aviltante,

    esse verá o desprezo entre estranhos.

Infâmia será para sua gente, mancha de heroica

    imagem, arauto da covardia e do opróbrio.

Não há para o exilado nenhuma ajuda,

   nem respeito, nem conforto, nem dó.

Lutemos, portanto, com ânimo por esta terra.

    Enfrentemos a morte sem apego à vida.

Jovens, combatei unidos,

     sufocai o medo, bani a fuga vergonhosa.


Fonte: Schüler, Donaldo. Literatura Grega. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1985. 

sábado, janeiro 24, 2026

Calino de Éfeso, Fragmento 1, Versos 1-4 (Trad. Donaldo Schüler)

 Fragmento 1, versos 1-4 (ed. West).


Até quando vocês vão ficar na cama?

Quando é que veremos em vocês ânimo guerreiro,

    meus jovens? Vocês não têm vergonha dos vizinhos,

com toda essa preguiça? Até parece que estamos entronizados 

     na paz, enquanto a guerra devasta a terra. 

sexta-feira, janeiro 23, 2026

Arquíloco - Traduções de Donaldo Schüler

 Fragmento 1 (ed. West)

Servidor eu sou do deus da Guerra

     e no amoroso dom das Musas eu versado me declaro. 


Fragmento 2 (ed. West)

A lança me dá vinho, a lança me dá pão,

     eu como, eu bebo com a lança na mão. 


Fragmento 5 (ed. West)

Um saio apoderou-se do meu escudo e se ri de mim,

   para meu pesar -- arma excelente -- a um matagal a joguei na fuga.

Mas salvei a minha vida. O que me interessa o escudo?

    Que se vá! Em breve terei outro igual.


Fragmento 11 (ed. West)

Nada melhorarei chorando, nada

    arruinarei no gozo e florescendo em festas.


Fragmento 177 (ed. West)

Ó Zeus, Zeus pai, teu é o poder nas alturas,

   as obras dos homens contemplas,

as criminosas e as praticadas na lei. Observas

   a soberba e a moderação de todos.


Fonte: Schüler, Donaldo. Literatura Grega. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1985.